Lara Vaz-Tostes

Um lugar para quem escreve com o corpo e escuta com a pele.


  • Sou feita de ruídos calmos.
    De ondas que não quebram — mas continuam.
    Carrego um sopro antigo entre as costelas,
    um quase-canto que não precisa ser ouvido.

    Penso com o corpo,
    sinto com a ideia,
    respiro pensamentos até que doam.

    Quando o mundo se cala,
    eu o escuto mais fundo —
    ele me fala com olhos de vento.

    Não nasci para ser inteira:
    sou movimento entre o que foi
    e o que ainda não é.

    Cada gesto é um vestígio do que pressinto.
    Cada palavra, um fio de pele
    entre o visível e o que vibra.

    Há quem veja o tempo.
    Eu o sinto passar dentro da respiração.

    Vivo entre o som que antecede o nome
    e o nome que já esqueceu o som.

    Não quero repouso.
    Quero o instante antes da paz —
    o exato segundo em que tudo
    ainda respira
    e delira.

  • A mão repousa sobre a mesa.
    Não segura nada — e ainda assim há um peso invisível, um eco do que foi presença.
    A madeira parece antiga, mas talvez seja o tempo que envelhece em volta dela. Entre o calor da pele e a superfície imóvel, existe algo que não se vê: um intervalo, uma respiração do que já não está.

    Ali, no espaço entre o toque e o não toque, o corpo se recorda de existir.
    Não é memória, é sensação pura — como se o vento se deitasse dentro da carne. O gesto não busca, não chama, não retém; apenas sustenta o que o mundo deixou cair.

    A mão, cansada, lembra o divino. Não o divino das alturas, mas o que se aloja no cansaço humano.
    É presença sem forma, ausência que aquece. Um vestígio que o corpo reconhece, mesmo sem lembrança.

    E então ela não move.
    Permanece aberta, entre o ser e o não ser, como se a própria madeira respirasse junto.
    Nesse repouso, o tempo se dissolve — e a mão, que antes tocava o mundo, torna-se o próprio espaço onde o mundo repousa.

    O gesto fica.
    Silencioso, imóvel, eterno o suficiente para ensinar o vazio a ter corpo.

  • A casa não fala — se cala e se aquece,
    guarda o que ouve, transforma, tece.
    Palavra que chega, o ar reconhece,
    vira calor onde o silêncio acontece.

    Séculos de ecos dormindo nas veias,
    até que uma vibração cresceu, ficou cheia;
    cansada de ouvir o que o tempo esquecia,
    a casa escreveu: encontro, e ardia.

    O lar não é teto, é pele que sente,
    o corpo dizendo: “agora pertenço.”
    Um sopro que passa, o ouvido que encosta,
    e o instante inteiro se inclina e se posta.

    Não há voz, nem aviso que anuncie o dia,
    só o silêncio vivo que atravessa e vigia:
    no fundo da pele, onde nada se explica,
    quem escuta, arrepia.


  • Só ao quase se perder,
    a voz se torna real.

    Quem, então, a escutaria?
    E ela insiste em ser.

    A brisa a leva —
    já rasa, já falha —
    e o que chega
    é o som do vento
    com uma minúscula existência em voz.

    Voz ou ruído?
    Diria que som,
    para não haver problemas.

    Som este sonhado.
    Por isso, talvez, incompleto.
    Sonhado por mim —
    mas pode ser
    que passe em outros sonhos.

    E parece paz.

    Assemelha-se ao silêncio,
    mas é seu oposto:
    melodia.

    Ínfima,
    mas eminente
    e imanente.

    E, talvez,
    eterna.

  • Alguém — por favor, me veja.

    Alguém — me salve, me lave a alma. Alguém — me seja, me torne larva. Alguém — me retire, me vire do avesso. Alguém — me jogue nas águas dos medos.

    Alguém? Quem?

    Alguém — vem, que sou você também.

Lara Vaz-Tostes

Um lugar para quem escreve com o corpo e escuta com a pele.

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