
about
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Sou feita de ruídos calmos.
De ondas que não quebram — mas continuam.
Carrego um sopro antigo entre as costelas,
um quase-canto que não precisa ser ouvido.
Penso com o corpo,
sinto com a ideia,
respiro pensamentos até que doam.
Quando o mundo se cala,
eu o escuto mais fundo —
ele me fala com olhos de vento.
Não nasci para ser inteira:
sou movimento entre o que foi
e o que ainda não é.
Cada gesto é um vestígio do que pressinto.
Cada palavra, um fio de pele
entre o visível e o que vibra.
Há quem veja o tempo.
Eu o sinto passar dentro da respiração.
Vivo entre o som que antecede o nome
e o nome que já esqueceu o som.
Não quero repouso.
Quero o instante antes da paz —
o exato segundo em que tudo
ainda respira
e delira. -
A mão repousa sobre a mesa.
Não segura nada — e ainda assim há um peso invisível, um eco do que foi presença.
A madeira parece antiga, mas talvez seja o tempo que envelhece em volta dela. Entre o calor da pele e a superfície imóvel, existe algo que não se vê: um intervalo, uma respiração do que já não está.
Ali, no espaço entre o toque e o não toque, o corpo se recorda de existir.
Não é memória, é sensação pura — como se o vento se deitasse dentro da carne. O gesto não busca, não chama, não retém; apenas sustenta o que o mundo deixou cair.
A mão, cansada, lembra o divino. Não o divino das alturas, mas o que se aloja no cansaço humano.
É presença sem forma, ausência que aquece. Um vestígio que o corpo reconhece, mesmo sem lembrança.
E então ela não move.
Permanece aberta, entre o ser e o não ser, como se a própria madeira respirasse junto.
Nesse repouso, o tempo se dissolve — e a mão, que antes tocava o mundo, torna-se o próprio espaço onde o mundo repousa.
O gesto fica.
Silencioso, imóvel, eterno o suficiente para ensinar o vazio a ter corpo. -
A casa não fala — se cala e se aquece,
guarda o que ouve, transforma, tece.
Palavra que chega, o ar reconhece,
vira calor onde o silêncio acontece.
Séculos de ecos dormindo nas veias,
até que uma vibração cresceu, ficou cheia;
cansada de ouvir o que o tempo esquecia,
a casa escreveu: encontro, e ardia.
O lar não é teto, é pele que sente,
o corpo dizendo: “agora pertenço.”
Um sopro que passa, o ouvido que encosta,
e o instante inteiro se inclina e se posta.
Não há voz, nem aviso que anuncie o dia,
só o silêncio vivo que atravessa e vigia:
no fundo da pele, onde nada se explica,
quem escuta, arrepia. -

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Só ao quase se perder,
a voz se torna real.
Quem, então, a escutaria?
E ela insiste em ser.
A brisa a leva —
já rasa, já falha —
e o que chega
é o som do vento
com uma minúscula existência em voz.
Voz ou ruído?
Diria que som,
para não haver problemas.
Som este sonhado.
Por isso, talvez, incompleto.
Sonhado por mim —
mas pode ser
que passe em outros sonhos.
E parece paz.
Assemelha-se ao silêncio,
mas é seu oposto:
melodia.
Ínfima,
mas eminente
e imanente.
E, talvez,
eterna. -
Alguém — por favor, me veja.
Alguém — me salve, me lave a alma. Alguém — me seja, me torne larva. Alguém — me retire, me vire do avesso. Alguém — me jogue nas águas dos medos.
Alguém? Quem?
Alguém — vem, que sou você também.









