Lara Vaz-Tostes

Um lugar para quem escreve com o corpo e escuta com a pele.

  • Nunca me seduziu o silêncio.
    Não ignoro suas vantagens: é cômodo, prudente
    e amplamente celebrado por poupar os outros
    do embaraço de nossas ideias.

    Possui, ademais, a notável virtude
    de fazer parecer profundas até as naturezas mais ocas.

    Cheguei a contemplá-lo com certa benevolência,
    como se contempla um hábito respeitável
    e profundamente desinteressante.

    Mas há em mim um desvio persistente.


    Penso.

    E do pensamento — essa indisciplina da mente —
    nascem opiniões.

    E das opiniões, inevitavelmente, palavras.

    Falo.


    Sem o menor talento para a concordância ornamental
    ou para essa forma tão difundida de cortesia
    que consiste em admirar o que não convence
    e acatar o que não resiste a dois minutos de reflexão.

    Quanto às opiniões alheias, tranquilizo: tolero-as.


    Como se toleram fenômenos inevitáveis
    ou pequenas excentricidades da natureza humana.


    Jamais me ocorreu, entretanto,
    atribuir-lhes aquela gravidade quase sagrada
    que seus autores, comoventemente, lhes conferem.

  • Acordei às seis da manhã, sem despertador, como sempre.
    Moro sozinha. O silêncio do apartamento, os movimentos previsíveis, a sucessão automática dos gestos — tudo obedecia à rotina que sustenta os dias úteis.

    Arrumei-me, alinhei o que era necessário, vesti a personagem funcional que o trabalho exige. Trabalho muito. Recebo o suficiente. A vida, como se sabe, opera dentro dessas margens discretas.

    Quando o relógio já se inclinava para as oito, saí.

    Foi ao cruzar a porta que algo se insinuou.

    Nada visível. Nenhuma ocorrência objetiva. Apenas uma sensação imprecisa, quase espacial, como se eu tivesse entrado num ângulo ligeiramente incorreto do mundo. Caminhei mesmo assim. Conferi a roupa — intacta. A maleta — presente. O passo — regular.

    Ainda assim, persistia a impressão desconcertante de estar sutilmente deslocada.

    As pessoas passavam apressadas. Carros. Ruídos. Tudo em funcionamento exemplar.

    Parei no sinal.

    Ergui os olhos.

    O sol.

    Por um instante, não compreendi o que exatamente me incomodava. A imagem parecia correta demais para ser estranha. Só depois o detalhe se impôs, silencioso e definitivo:
    o sol estava à direita.

    Pisquei. Reorientei o olhar. Tentei reconstruir mentalmente o espaço, como quem revê um cálculo elementar. Não moro no oriente. Nunca morei. Ainda assim, a posição do sol permanecia irrefutável, alheia a qualquer argumento íntimo.

    Foi então que notei algo ainda menos razoável.

    Eu não caminhava em direção ao trabalho.

    Seguia na direção oposta.

    Sem perceber em que ponto ocorrera o desvio, havia avançado exatamente para trás. O trajeto inteiro transcorrera sob perfeita normalidade, como se o erro estivesse rigorosamente integrado à ordem das coisas.

    Parei.

    Não houve susto. Não houve urgência.
    Apenas uma estranha neutralidade.

    Fiquei imóvel por alguns segundos, observando o sol indevidamente posicionado, enquanto uma suspeita quase intolerável começou a se formar — vaga, mas insistente:
    talvez o equívoco não estivesse no mundo.

  • A dor de cabeça pulsa.
    Regular. Inegociável.

    Os olhos pesam numa umidade suspensa,
    um quase gesto que não se completa.

    As pernas balançam, discretas,
    num movimento sem intenção,
    como se o corpo procurasse um ponto
    que não chega a se fixar.

    A mente, exausta de si,
    já não formula, já não reage.
    Apenas cede em ruído.
    E então, sem transição,
    algo afrouxa.

    Nada muda.

    Ainda assim, algo pesa menos.
    O instante não melhora —
    apenas deixa de resistir.

  • Clara perguntou sobre a felicidade numa tarde comum, dessas em que não se espera nada além de cumprir o dia. Perguntou quase sem querer, como quem comenta o clima. Alguém respondeu que a felicidade vinha de pequenos momentos. Ela concordou, porque parecia uma resposta adequada e porque discordar exigiria mais energia.

    Depois, sozinha, pensou na tristeza. Não viria ela também em pequenos momentos? Um gesto deslocado, uma palavra mal colocada, um silêncio que dura mais do que devia. Passou então a confundir as duas. Achou que tristeza era quando doía, e felicidade quando não doía. A equação parecia razoável.

    Mas a vida não confirmou essa lógica.
    Houve dias inteiros sem dor alguma em que Clara não sentiu felicidade nenhuma. E houve tristezas sem dor — apenas uma presença discreta, sentada ali, ocupando espaço, sem aviso nem explicação. Isso a perturbava mais do que a dor clara.

    Por um tempo, resolveu apostar no sucesso. Pensou que talvez a felicidade aparecesse quando se alcança o que se deseja. Funcionou por instantes. Depois passou. O que ficou não foi tristeza, mas um silêncio meio frustrado, como quando se espera demais de uma resposta automática.

    Hoje, Clara já não tenta resolver a questão. Vive. Ama. Ri quando dá. Em outros dias, apenas segue. Não porque tenha encontrado uma resposta melhor, mas porque percebeu que insistir na pergunta não ajudava muito.

    No fim, Clara parou de procurar uma definição definitiva.

    Notou que a felicidade parecia sempre ocupada demais para se deixar explicar. Talvez estivesse acontecendo enquanto ela pensava nela.

    Quando alguém pergunta se ela é feliz, Clara não se apressa. Diz que anda. Que vive. Que há dias melhores, outros nem tanto. Não por filosofia — por economia.

    A felicidade, ao que tudo indica, não gosta de entrevistas.

  • Silêncio.

    Nenhum ruído ao redor — nem mesmo aqueles que costumam sobreviver quando tudo se cala. Estou só. Parada. Os ouvidos parecem inúteis, ou talvez necessários apenas para ouvir a paz, se é que ela faz som.

    Nada em volta.

    Meus pés descalços tocam um chão branco, limpo, sem marcas, sem restos de passagem. Um chão que não conta histórias. Ao pisá-lo, duvido da minha própria presença. Estou aqui? Sou corpo, sou alma? Não sei. Mas os pensamentos estão. Eles permanecem.
    São eles o único som.

    Ecoam alto, quase demais, como se precisassem provar que existo. Ouço cada um. Ouço inclusive o pensamento que pensa este instante — e isso me faz sorrir por dentro, embora o rosto permaneça imóvel.

    Tento nomear o que é isso. Paz? Solidão? Angústia? Descanso? As palavras rondam, mas não pousam. Nenhuma se fixa tempo suficiente para virar verdade.

    Então percebo outro som.
    Meu coração. Ele bate. Não com urgência, nem com entrega. Bate como quem marca presença sem exigir atenção. Parece mais lento. Não estou calma — mas também não estou agitada. Não há medo. Não há impulso de fuga.

    Há um vão.

    Um espaço entre ser e precisar ser. Um intervalo onde não se exige resposta, nem forma, nem sentido. Um não-estar que, estranhamente, sustenta.
    Percebo que, às vezes, necessito disso.

    Desse lugar onde nada me convoca. Onde não preciso me reconhecer para existir. Onde fico.
    Não sei por quanto tempo.

    Mas fico.

    Em silêncio.
    Em pensamento.
    Em coração.

  • Acorda sem sobressalto. A vida já está ali antes do gesto, espalhada no quarto, no ar que entra sem pedir licença. Não chega a ser lucidez. É mais um estar. Um pouco tonta — o corpo avisa antes do pensamento. Pressão baixa. O mundo inclina levemente para a esquerda.
    Levanta.
    Lava o rosto como quem cumpre um acordo antigo. A água corre. O espelho devolve algo reconhecível, embora sem nome. Há coisas que não se dizem — não por falta de palavra, mas por excesso de realidade. O desejo, por exemplo. O que se quer quando não se sabe querer.
    Faz o café.
    Não por ritual, mas por precisão. A quantidade certa. Nem mais, nem menos. A água ferve. O cheiro sobe e ocupa a cozinha com uma promessa mínima, quase suficiente. Há um consolo discreto em saber exatamente quanto colocar, quando desligar, quando esperar. O mundo ainda responde a pequenas ordens.
    Serve.
    O primeiro gole é amargo. Como deve ser. A língua reconhece antes de julgar. Amargo. Quente. Verdadeiro. Há um bolo sobre a mesa, esquecido da noite anterior. Doce encontra amargo sem conflito. A vida talvez seja isso: combinações imperfeitas que não se anulam.
    Não desperta de todo.
    A manhã permanece em suspenso, como se o dia ainda estivesse decidindo se vale a pena começar. Há uma tristeza sem drama, pesada como coisa úmida. Não chega a doer — apenas pesa. E, ainda assim, há gosto. E o gosto agrada. O amargo aquece a garganta de um jeito bom, quase medicinal.
    Não sabe mais separar com clareza o que é bom, médio ou ruim. Essa divisão parece grosseira demais para o estado em que está. As coisas simplesmente são. O café é amargo. O corpo existe. O tempo passa devagar. Tudo isso basta.
    Existe.
    Isso é certo.
    Depois do café, continuará. Não porque haja entusiasmo, mas porque há continuidade. A aventura de viver não exige pressa. Exige presença. Um passo. Depois outro. Talvez nenhum hoje além desse.
    Vai aos poucos.
    Como se a vida, finalmente, tivesse concordado com esse ritmo.


  • Sou feita de ruídos calmos.
    De ondas que não quebram — mas continuam.
    Carrego um sopro antigo entre as costelas,
    um quase-canto que não precisa ser ouvido.

    Penso com o corpo,
    sinto com a ideia,
    respiro pensamentos até que doam.

    Quando o mundo se cala,
    eu o escuto mais fundo —
    ele me fala com olhos de vento.

    Não nasci para ser inteira:
    sou movimento entre o que foi
    e o que ainda não é.

    Cada gesto é um vestígio do que pressinto.
    Cada palavra, um fio de pele
    entre o visível e o que vibra.

    Há quem veja o tempo.
    Eu o sinto passar dentro da respiração.

    Vivo entre o som que antecede o nome
    e o nome que já esqueceu o som.

    Não quero repouso.
    Quero o instante antes da paz —
    o exato segundo em que tudo
    ainda respira
    e delira.

  • A mão repousa sobre a mesa.
    Não segura nada — e ainda assim há um peso invisível, um eco do que foi presença.
    A madeira parece antiga, mas talvez seja o tempo que envelhece em volta dela. Entre o calor da pele e a superfície imóvel, existe algo que não se vê: um intervalo, uma respiração do que já não está.

    Ali, no espaço entre o toque e o não toque, o corpo se recorda de existir.
    Não é memória, é sensação pura — como se o vento se deitasse dentro da carne. O gesto não busca, não chama, não retém; apenas sustenta o que o mundo deixou cair.

    A mão, cansada, lembra o divino. Não o divino das alturas, mas o que se aloja no cansaço humano.
    É presença sem forma, ausência que aquece. Um vestígio que o corpo reconhece, mesmo sem lembrança.

    E então ela não move.
    Permanece aberta, entre o ser e o não ser, como se a própria madeira respirasse junto.
    Nesse repouso, o tempo se dissolve — e a mão, que antes tocava o mundo, torna-se o próprio espaço onde o mundo repousa.

    O gesto fica.
    Silencioso, imóvel, eterno o suficiente para ensinar o vazio a ter corpo.

Lara Vaz-Tostes

Um lugar para quem escreve com o corpo e escuta com a pele.

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