Lara Vaz-Tostes

Um lugar para quem escreve com o corpo e escuta com a pele.

A Coisa Que Nunca Disfarcei

Nunca disfarcei.
Talvez seja isso que leva a lágrima ao rosto —
o que antes eu calava,
e agora curva minha sobrancelha
num traço de quem sente antes de saber.

Sou assim.
Isso.
E mesmo sem nome,
sou o que não sei esconder.

Há em mim um desejo de viver tanto,
mas uma pulsão de viver de fora.
Olho, detenho,
sinto.
Como quem pressente o mundo
mas não o alcança de imediato.

Talvez eu seja o receio constante,
o que reverbera sem som,
o que hesita não por fraqueza,
mas por saber o peso de cada gesto.

Há algo em mim que freia —
não por recuo,
mas por reverência.
Como quem escuta o invisível
antes de se mover.

E isso,
isso é o que nunca disfarcei.
Mesmo que ninguém tenha dito,
mesmo que ninguém tenha visto.

Mas se olhas bem, verás.
Há em mim um nome que nunca foi dito
e, ainda assim, é meu rosto inteiro.