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Nunca me seduziu o silêncio.Não ignoro suas vantagens: é cômodo, prudentee amplamente celebrado por poupar os outrosdo embaraço de nossas ideias. Possui, ademais, a notável virtudede fazer parecer profundas até as naturezas mais ocas. Cheguei a contemplá-lo com certa benevolência,como se contempla um hábito respeitávele profundamente desinteressante. Mas há em mim um desvio persistente. Penso.…
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Acordei às seis da manhã, sem despertador, como sempre.Moro sozinha. O silêncio do apartamento, os movimentos previsíveis, a sucessão automática dos gestos — tudo obedecia à rotina que sustenta os dias úteis. Arrumei-me, alinhei o que era necessário, vesti a personagem funcional que o trabalho exige. Trabalho muito. Recebo o suficiente. A vida, como se…
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A dor de cabeça pulsa.Regular. Inegociável. Os olhos pesam numa umidade suspensa,um quase gesto que não se completa. As pernas balançam, discretas,num movimento sem intenção,como se o corpo procurasse um pontoque não chega a se fixar. A mente, exausta de si,já não formula, já não reage.Apenas cede em ruído.E então, sem transição,algo afrouxa. Nada muda.…
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Clara perguntou sobre a felicidade numa tarde comum, dessas em que não se espera nada além de cumprir o dia. Perguntou quase sem querer, como quem comenta o clima. Alguém respondeu que a felicidade vinha de pequenos momentos. Ela concordou, porque parecia uma resposta adequada e porque discordar exigiria mais energia. Depois, sozinha, pensou na…
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Silêncio. Nenhum ruído ao redor — nem mesmo aqueles que costumam sobreviver quando tudo se cala. Estou só. Parada. Os ouvidos parecem inúteis, ou talvez necessários apenas para ouvir a paz, se é que ela faz som. Nada em volta. Meus pés descalços tocam um chão branco, limpo, sem marcas, sem restos de passagem. Um…
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Acorda sem sobressalto. A vida já está ali antes do gesto, espalhada no quarto, no ar que entra sem pedir licença. Não chega a ser lucidez. É mais um estar. Um pouco tonta — o corpo avisa antes do pensamento. Pressão baixa. O mundo inclina levemente para a esquerda.Levanta.Lava o rosto como quem cumpre um…
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Sou feita de ruídos calmos.De ondas que não quebram — mas continuam.Carrego um sopro antigo entre as costelas,um quase-canto que não precisa ser ouvido. Penso com o corpo,sinto com a ideia,respiro pensamentos até que doam. Quando o mundo se cala,eu o escuto mais fundo —ele me fala com olhos de vento. Não nasci para ser…
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A mão repousa sobre a mesa.Não segura nada — e ainda assim há um peso invisível, um eco do que foi presença.A madeira parece antiga, mas talvez seja o tempo que envelhece em volta dela. Entre o calor da pele e a superfície imóvel, existe algo que não se vê: um intervalo, uma respiração do…

