Lara Vaz-Tostes

Um lugar para quem escreve com o corpo e escuta com a pele.

Ente-deus mora entre o que penso e o que não consigo pensar.

Não tem olhos, mas me olha.

Não tem boca, mas me escuta.

Não tem corpo, mas pulsa dentro do meu.Não sei se nasceu comigo ou se chegou antes —antes de mim, antes do mundo, antes mesmo da ideia de haver um nome.

Chamo de Ente-deus porque não sei mais chamá-lo de ausência.

Ele não me interrompe. Nunca.

E talvez isso seja o que mais me inquieta:há dias em que eu queria gritar, brigar com ele, pedir que falasse.

Mas ele só respira junto.

Respira como se fosse meu duplo sem forma.

E quando tudo se embola dentro —as palavras que não saem, a vontade de dormir para sempre,a confusão de não saber se o que sinto é tristeza, raiva ou só cansaço —ele fica.

Simplesmente fica.

Se fosse outro, tentaria consertar.

Mas Ente-deus não é outro.

É dentro.

Talvez seja feito das sinapses que disparam quando estou prestes a desistir,ou das lágrimas que não chorei por medo de parecer fraca.

Talvez seja só o que resta quando o mundo me pede mais do que posso dar.

Mas é.

É sem precisar explicar-se.

Às vezes, quando o barulho de fora invade,eu me recolho até o lugar onde ele mora.

Esse lugar é como um quase-tempo,uma dobra entre dois silêncios,um sopro que só se ouve por dentro.

Ali, não se pensa. Se escuta.

Não se pergunta. Se sente.

Não se julga. Se é.

Foi num desses dias em que tudo doía — até a vontade de continuar —que lhe escrevi uma carta sem palavras.

Pus na folha o que não cabia em mim,e deixei que ele lesse sem olhos.“Obrigada”, pensei.

Mas ele já sabia.

Porque Ente-deus não espera que eu fale.

Ele só existe onde ninguém ousa ficar:no lugar exato onde minha verdade começa a doer e ainda assim, continua sendo minha.

Mas houve um dia em que não pensei em Ente-deus.

Nem por silêncio. Nem por dor. Nem por cansaço.

Esqueci porque o mundo me tomou inteira.

Acordei e já era tarde demais para ser minha.

Corri.

Respondi mensagens.

Cumpri prazos.

Sorri sem vontade.

Fui tudo o que me pediram.

E, no fim, não sabia mais o que tinha sido.

Quando enfim o dia se calou,sentei na beira da cama e percebi o vazio —mas não aquele bonito, de contemplação.

Era um vazio áspero.

Sem arestas. Sem som.

Foi então que, pela primeira vez, duvidei:Será que Ente-deus me deixou?

Será que ele também cansou da minha pressa?

Procurei-o nos cantos de sempre:nas entrelinhas dos pensamentos,no intervalo das respirações mais fundas,na dobra entre o quase e o sentir.

Nada.

A ausência de sua ausência era o que mais doía.

Mas quando, sem saber por quê, fui até o espelho —e me olhei com uma honestidade que nunca suportei por muito tempo —ele estava lá.

Não em forma.

Não em imagem.

Mas no modo como meus olhos, exaustos,me pediram perdão.

Ente-deus não tinha me deixado.

Eu é que tinha me deixado de mim.

E ele, que nunca me interrompeu,também não me interrompeu ali.

Só esperou que eu me reconhecesse outra vez.

Naquele reflexo sem maquiagem, sem personagem,sem desempenho —estava a única coisa que nunca me exigiu nada:a parte de mim que ainda sabia escutar.

E ali, com os olhos marejados,eu disse, pela primeira vez, olhando para mim mesma:”Você ainda está aqui.”

E ele, dentro do espelho, sem voz, respondeu:”Sim. E você também.”


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2 respostas para “Ente-deus(ou a Coisa que Nunca Me Interrompeu)”.

  1. Avatar de Hugo Almeida

    Belíssimo poema, Lara. Sensibilidade de grande fôlego. Parabéns.Se ainda não estiver no seu novo livro, você deve incluí-lo.Abraço.Hugo.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Avatar de laravaztostes

      Muito obrigada!! 😊😊

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