Lara Vaz-Tostes

Um lugar para quem escreve com o corpo e escuta com a pele.

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  • Vejo os dias, embaçados,deslizarem pela lentesuspensa em meu olhar,já não inocente,destes olhos fatigados. Há mistério nas contingênciasdesta vida que perdurae sustenta o corpo,como Atlas, antigo e só,carregava o mundo. Sou um mundo.Cada ser o é também,à sua maneira funda,singular e irrepetível.Mas não sou apenasvítima do peso. Tomarei entre os dedosum pano mínimo,um gesto quase terno,e…

  • No espelho, olhos fundos.Nas mãos, o vazio.Nos pés, a medida exatade quem nasceu pequenopara um mundo excessivo. O vácuo, por vezes,interrompe-me a respiração,como se viver fosse isto:uma hesitação entre o abismoe o próximo instante. Mas o coração — criatura travessa,pouco obediente à ruína —bate.E, mais do que isso, revolta-se. Convém notar:o que é frágil não…

  • Ela começa a se preparar cinco horas antes. É coisa dela. Escolhe a roupa devagar, volta ao espelho, muda de ideia. Há sempre algo a ajustar: um fio de cabelo, um gesto, um perfume. Como se a noite dependesse de pequenos detalhes. Ele começa uma hora antes.Também nervoso, embora talvez não saiba dar esse nome…

  • Sentava nos degraus de um museu, esperando o carro para casa. Não estava feliz.Também não estava triste. A praça em frente estava cheia.O pipoqueiro escutava um radinho.Eu, sozinha. Talvez os olhos um pouco úmidos.Tristeza dessas que não pedem explicação. Passou um rapaz vendendo balas.Ofereceu uma.Recusei — falta de recursos. Ele seguiu.Algum tempo depois voltou.Disse que…

  • Nunca me seduziu o silêncio.Não ignoro suas vantagens: é cômodo, prudentee amplamente celebrado por poupar os outrosdo embaraço de nossas ideias. Possui, ademais, a notável virtudede fazer parecer profundas até as naturezas mais ocas. Cheguei a contemplá-lo com certa benevolência,como se contempla um hábito respeitávele profundamente desinteressante. Mas há em mim um desvio persistente. Penso.…

  • Acordei às seis da manhã, sem despertador, como sempre.Moro sozinha. O silêncio do apartamento, os movimentos previsíveis, a sucessão automática dos gestos — tudo obedecia à rotina que sustenta os dias úteis. Arrumei-me, alinhei o que era necessário, vesti a personagem funcional que o trabalho exige. Trabalho muito. Recebo o suficiente. A vida, como se…