Vejo os dias, embaçados,
deslizarem pela lente
suspensa em meu olhar,
já não inocente,
destes olhos fatigados.
Há mistério nas contingências
desta vida que perdura
e sustenta o corpo,
como Atlas, antigo e só,
carregava o mundo.
Sou um mundo.
Cada ser o é também,
à sua maneira funda,
singular e irrepetível.
Mas não sou apenas
vítima do peso.
Tomarei entre os dedos
um pano mínimo,
um gesto quase terno,
e limparei devagar
a bruma dos meus olhos.
Verei, então.
Não demais
— não sou de excessos —
mas o bastante
para seguir.
Serei meu próprio amparo,
e o que em mim pesa,
enfim mais manso,
pesará mais leve.


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