No espelho, olhos fundos.
Nas mãos, o vazio.
Nos pés, a medida exata
de quem nasceu pequeno
para um mundo excessivo.
O vácuo, por vezes,
interrompe-me a respiração,
como se viver fosse isto:
uma hesitação entre o abismo
e o próximo instante.
Mas o coração — criatura travessa,
pouco obediente à ruína —
bate.
E, mais do que isso, revolta-se.
Convém notar:
o que é frágil não é nulo.
O que é pequeno
não se confunde com o inexistente.
Vivo, pois, nessa dança estranha,
em que o corpo sente
mais do que consente,
e guarda em si movimentos
que não consegue repetir.


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