Lara Vaz-Tostes

Um lugar para quem escreve com o corpo e escuta com a pele.

Há um livro que não é meu.

Nunca foi.

Mas pulsa em mim

como se soubessea hora exata

em que minhas mãos

vão precisar dele.





Não sei onde mora —talvez num sebo escondido,

entre poeiras que respeitam o tempo.

Talvez numa estante onde o silêncio

segura o ar.





Mas ele existe.





Guarda uma virada.

Uma chave.

Não para o mundo —para mim.





Não sei quem o escreveu.

Mas sinto:

minhas palavras vivem nele

antes mesmo de eu as ter dito.





Ele me esperasem pressa,

como esperam as coisas

que nunca foram nossas,

mas nos pertencem

no íntimo que ninguém vê.





E se um dia eu o tocar,

não será encontro.

Será desvelamento.

Como se o tempo respirasse fundo

e dissesse:”Agora você pode.”





Porque há livrosque não se acham.

Se lembram.

Se tornam pele.

Se escrevem em silêncio

dentro de nós —até o instante

em que deixamos de buscá-los,

e enfim

os somos.


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