Há um livro que não é meu.
Nunca foi.
Mas pulsa em mim
como se soubessea hora exata
em que minhas mãos
vão precisar dele.
Não sei onde mora —talvez num sebo escondido,
entre poeiras que respeitam o tempo.
Talvez numa estante onde o silêncio
segura o ar.
Mas ele existe.
Guarda uma virada.
Uma chave.
Não para o mundo —para mim.
Não sei quem o escreveu.
Mas sinto:
minhas palavras vivem nele
antes mesmo de eu as ter dito.
Ele me esperasem pressa,
como esperam as coisas
que nunca foram nossas,
mas nos pertencem
no íntimo que ninguém vê.
E se um dia eu o tocar,
não será encontro.
Será desvelamento.
Como se o tempo respirasse fundo
e dissesse:”Agora você pode.”
Porque há livrosque não se acham.
Se lembram.
Se tornam pele.
Se escrevem em silêncio
dentro de nós —até o instante
em que deixamos de buscá-los,
e enfim
os somos.


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