Ninguém sabia ao certo quando ela havia recebido a pedra.
Talvez no ventre. Talvez no primeiro gesto de silêncio.
Só se sabia de uma coisa: ela nunca a deixou cair.
Chamava-se Clara, mas havia algo em seu nome que sempre parecia faltar uma sílaba — como se estivesse eternamente esperando um sopro para ser inteiro.
A pedra morava ora na barriga, ora no peito, ora na palma da mão.
Era quente. Pesada.
Mas de um tipo de peso que lembrava colo, não castigo.
Tinha forma de dente de leão.
E isso confundia os outros.
— Parece tão leve — diziam.
— É só aparência — ela respondia, com um sorriso sereno.
— Mas se assoprar… voa?
— Não. Ela não veio para ir embora.
Durante muito tempo, Clara acreditou que a pedra era um enigma a ser decifrado.
Tentou nomeá-la com palavras dos outros: ansiedade, lembrança, saudade.
Nenhuma servia.
Até que um dia, no meio de uma tarde que parecia nada, ela a segurou com as duas mãos e perguntou:
— Você me fez ou fui eu que te fiz?
A pedra não respondeu.
Mas naquele instante, Clara soube: a pedra era a parte dela que nunca se separou do que era essencial.
Não a parte que grita. Nem a que explica.
Mas a que ancora.
Era o que a fazia voltar, quando tudo se desfazia.
Era o que a sustentava, mesmo quando nada mais parecia caber.
Nunca contou isso a ninguém.
Mas um dia, quando alguém lhe perguntou como conseguia existir tão profundamente,
ela apenas disse:
— Carrego uma pedra.
Ela parece leve.
Mas é nela que o mundo me pesa com sentido.
E pela primeira vez, sentiu que talvez não fosse preciso nomear.
Bastava aceitar: há pedras que não se jogam.
Há pedras que formam chão.
E há pedras — raras, mas reais — que são o coração antes do nome.
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