Lara Vaz-Tostes

Um lugar para quem escreve com o corpo e escuta com a pele.

Antes do nome,
eu já era.

Não com rosto,
não com gesto,
mas com um saber sem borda,
sem margem,
sem início.

Algo em mim sabia
o que não se ensina.
Sabia como o chão sabe a raiz
sem nunca tê-la visto.

Era um saber sem palavra,
feito de pele que respira sozinha,
de silêncio que não pesa,
de presença que não pede licença.

Às vezes, ele me escapa —
na curva de um pensamento,
na dobra de um dia qualquer,
quando tento agarrá-lo
e ele sorri como quem brinca:
“ainda não.”

Mas está.

Está nas pausas.
Naquilo que antecede o sim.
No que permanece
quando todo o resto vai embora.

Não sei o nome.
Nem quero.

Se nomear, talvez escape.
Se explicar, talvez morra.

Então eu fico quieta.
E ele fica também.

E nesse pacto sem voz,
me torno.


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