Lara Vaz-Tostes

Um lugar para quem escreve com o corpo e escuta com a pele.

Existe algo que se move quando não olho.
“Algo” é palavra pequena demais para isso. É tudo — menos o que meus olhos alcançam.

Olho minhas mãos e vejo apenas as mãos, cercadas por um contorno embaçado.
O resto — o grande resto — acontece sem mim.
O tempo não passa: acontece. O ar desliza, minha gata se lambe, a rua muda. E eu nunca vejo o instante da mudança.

No começo, tentei flagrar. Um copo de água, um casaco na cadeira, uma fotografia. Sempre que virava o rosto, algo mudava: uma gota, um milímetro, um reflexo. Era como se o mundo preservasse o pudor do acontecer.

Até que entendi: não sou eu quem vê o movimento. Sou o intervalo que o permite.
Aprendi a oferecer minha ausência como presente.
E, às vezes, quando fecho os olhos e conto até treze, não é para flagrar — é para abençoar.


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