Ninguém nunca havia entrado por aquela porta. E, ainda assim, havia sinais de que alguém já a atravessara.
Alguns diziam que era ilusão. Outros, que o espaço se dobrava sobre si. Para mim, parecia mais simples: não era a porta que se abria, mas o mundo que mudava de lugar.
A superfície era lisa, sem maçaneta, como se recusasse qualquer gesto humano de posse. Ao aproximar-me, ela desaparecia — restava apenas o cheiro súbito de terra molhada, uma sombra breve contra o chão, um sopro que não vinha de lado nenhum. Quando eu desviava os olhos, a porta voltava a existir, sólida, absurda.
Fiquei dias tentando decifrar. Quem havia passado por ali? Um espírito? Não creio. Talvez fosse eu mesma. Talvez todos os que mudaram de lugar dentro de si. Porque mudar, descobri, também é atravessar.
E se a porta não guardava outro espaço, mas a memória de todas as passagens invisíveis? A cada virtude adquirida, a cada pequena melhora, uma travessia silenciosa era registrada em sua madeira muda.
Não sei se atravessei, ou se fui atravessada. Só sei que, quando voltei, o mundo me olhava diferente — não como quem passou, mas como quem se tornou passagem.
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