Lara Vaz-Tostes

Um lugar para quem escreve com o corpo e escuta com a pele.

Acorda sem sobressalto. A vida já está ali antes do gesto, espalhada no quarto, no ar que entra sem pedir licença. Não chega a ser lucidez. É mais um estar. Um pouco tonta — o corpo avisa antes do pensamento. Pressão baixa. O mundo inclina levemente para a esquerda.
Levanta.
Lava o rosto como quem cumpre um acordo antigo. A água corre. O espelho devolve algo reconhecível, embora sem nome. Há coisas que não se dizem — não por falta de palavra, mas por excesso de realidade. O desejo, por exemplo. O que se quer quando não se sabe querer.
Faz o café.
Não por ritual, mas por precisão. A quantidade certa. Nem mais, nem menos. A água ferve. O cheiro sobe e ocupa a cozinha com uma promessa mínima, quase suficiente. Há um consolo discreto em saber exatamente quanto colocar, quando desligar, quando esperar. O mundo ainda responde a pequenas ordens.
Serve.
O primeiro gole é amargo. Como deve ser. A língua reconhece antes de julgar. Amargo. Quente. Verdadeiro. Há um bolo sobre a mesa, esquecido da noite anterior. Doce encontra amargo sem conflito. A vida talvez seja isso: combinações imperfeitas que não se anulam.
Não desperta de todo.
A manhã permanece em suspenso, como se o dia ainda estivesse decidindo se vale a pena começar. Há uma tristeza sem drama, pesada como coisa úmida. Não chega a doer — apenas pesa. E, ainda assim, há gosto. E o gosto agrada. O amargo aquece a garganta de um jeito bom, quase medicinal.
Não sabe mais separar com clareza o que é bom, médio ou ruim. Essa divisão parece grosseira demais para o estado em que está. As coisas simplesmente são. O café é amargo. O corpo existe. O tempo passa devagar. Tudo isso basta.
Existe.
Isso é certo.
Depois do café, continuará. Não porque haja entusiasmo, mas porque há continuidade. A aventura de viver não exige pressa. Exige presença. Um passo. Depois outro. Talvez nenhum hoje além desse.
Vai aos poucos.
Como se a vida, finalmente, tivesse concordado com esse ritmo.


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Uma resposta a “Amargo”

  1. Avatar de Hugo Almeida

    Belíssimo texto, Lara. O “amargo” que se faz doce.Parabéns.Quando cliquei no curtir, apareceu “este link expirou”. Pena. Tem jeito de renová-lo?Fraterno abraço. Hugo.

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