Acordei às seis da manhã, sem despertador, como sempre.
Moro sozinha. O silêncio do apartamento, os movimentos previsíveis, a sucessão automática dos gestos — tudo obedecia à rotina que sustenta os dias úteis.
Arrumei-me, alinhei o que era necessário, vesti a personagem funcional que o trabalho exige. Trabalho muito. Recebo o suficiente. A vida, como se sabe, opera dentro dessas margens discretas.
Quando o relógio já se inclinava para as oito, saí.
Foi ao cruzar a porta que algo se insinuou.
Nada visível. Nenhuma ocorrência objetiva. Apenas uma sensação imprecisa, quase espacial, como se eu tivesse entrado num ângulo ligeiramente incorreto do mundo. Caminhei mesmo assim. Conferi a roupa — intacta. A maleta — presente. O passo — regular.
Ainda assim, persistia a impressão desconcertante de estar sutilmente deslocada.
As pessoas passavam apressadas. Carros. Ruídos. Tudo em funcionamento exemplar.
Parei no sinal.
Ergui os olhos.
O sol.
Por um instante, não compreendi o que exatamente me incomodava. A imagem parecia correta demais para ser estranha. Só depois o detalhe se impôs, silencioso e definitivo:
o sol estava à direita.
Pisquei. Reorientei o olhar. Tentei reconstruir mentalmente o espaço, como quem revê um cálculo elementar. Não moro no oriente. Nunca morei. Ainda assim, a posição do sol permanecia irrefutável, alheia a qualquer argumento íntimo.
Foi então que notei algo ainda menos razoável.
Eu não caminhava em direção ao trabalho.
Seguia na direção oposta.
Sem perceber em que ponto ocorrera o desvio, havia avançado exatamente para trás. O trajeto inteiro transcorrera sob perfeita normalidade, como se o erro estivesse rigorosamente integrado à ordem das coisas.
Parei.
Não houve susto. Não houve urgência.
Apenas uma estranha neutralidade.
Fiquei imóvel por alguns segundos, observando o sol indevidamente posicionado, enquanto uma suspeita quase intolerável começou a se formar — vaga, mas insistente:
talvez o equívoco não estivesse no mundo.
Descubra mais sobre Lara Vaz-Tostes
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
Posted in Uncategorized


Deixe um comentário