Lara Vaz-Tostes

Um lugar para quem escreve com o corpo e escuta com a pele.

Nunca me seduziu o silêncio.
Não ignoro suas vantagens: é cômodo, prudente
e amplamente celebrado por poupar os outros
do embaraço de nossas ideias.

Possui, ademais, a notável virtude
de fazer parecer profundas até as naturezas mais ocas.

Cheguei a contemplá-lo com certa benevolência,
como se contempla um hábito respeitável
e profundamente desinteressante.

Mas há em mim um desvio persistente.


Penso.

E do pensamento — essa indisciplina da mente —
nascem opiniões.

E das opiniões, inevitavelmente, palavras.

Falo.


Sem o menor talento para a concordância ornamental
ou para essa forma tão difundida de cortesia
que consiste em admirar o que não convence
e acatar o que não resiste a dois minutos de reflexão.

Quanto às opiniões alheias, tranquilizo: tolero-as.


Como se toleram fenômenos inevitáveis
ou pequenas excentricidades da natureza humana.


Jamais me ocorreu, entretanto,
atribuir-lhes aquela gravidade quase sagrada
que seus autores, comoventemente, lhes conferem.


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