Nunca me seduziu o silêncio.
Não ignoro suas vantagens: é cômodo, prudente
e amplamente celebrado por poupar os outros
do embaraço de nossas ideias.
Possui, ademais, a notável virtude
de fazer parecer profundas até as naturezas mais ocas.
Cheguei a contemplá-lo com certa benevolência,
como se contempla um hábito respeitável
e profundamente desinteressante.
Mas há em mim um desvio persistente.
Penso.
E do pensamento — essa indisciplina da mente —
nascem opiniões.
E das opiniões, inevitavelmente, palavras.
Falo.
Sem o menor talento para a concordância ornamental
ou para essa forma tão difundida de cortesia
que consiste em admirar o que não convence
e acatar o que não resiste a dois minutos de reflexão.
Quanto às opiniões alheias, tranquilizo: tolero-as.
Como se toleram fenômenos inevitáveis
ou pequenas excentricidades da natureza humana.
Jamais me ocorreu, entretanto,
atribuir-lhes aquela gravidade quase sagrada
que seus autores, comoventemente, lhes conferem.


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