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Há uma palavra que nunca quis nascer. Não era silêncio. Nem sombra.Nem o avesso da luz. Era o que havia antes de qualquer direção. Não pediu para ser pensada — e não foi. Mas um corpo a pressentiu, ao pisar no chão pela primeira vez, e sentiu o não-chão, e decidiu viver. Chamou esse não-chão…
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Ninguém sabia ao certo quando ela havia recebido a pedra.Talvez no ventre. Talvez no primeiro gesto de silêncio.Só se sabia de uma coisa: ela nunca a deixou cair. Chamava-se Clara, mas havia algo em seu nome que sempre parecia faltar uma sílaba — como se estivesse eternamente esperando um sopro para ser inteiro. A pedra…
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Há um livro que não é meu. Nunca foi. Mas pulsa em mim como se soubessea hora exata em que minhas mãos vão precisar dele. Não sei onde mora —talvez num sebo escondido, entre poeiras que respeitam o tempo. Talvez numa estante onde o silêncio segura o ar. Mas ele existe. Guarda uma virada. Uma…
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Ente-deus mora entre o que penso e o que não consigo pensar. Não tem olhos, mas me olha. Não tem boca, mas me escuta. Não tem corpo, mas pulsa dentro do meu.Não sei se nasceu comigo ou se chegou antes —antes de mim, antes do mundo, antes mesmo da ideia de haver um nome. Chamo…
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Sim, minha alma. Ela tentou ser sombra. Tentou calar para caber.Tentou se dobrar para não ser demais. Tentou ser borda, ausência,recuo. Mas a tentativa foi interrompida – por um gesto íntimo deescuta. Não há como ser silêncio perpétuo. Há como ser silênciomomentâneo. E isso… é mais que válido. Agora, já não fujo de mim.Vamos, meus…
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Nem sempre o que nos forma é o que o mundo vê.Às vezes, o que nos escreve é o que ninguém soube nomear.Fui ausência para muitos.Mas, para mim, fui presença intensa — ainda que calada. Houve um lugar onde meu corpo dobrado dizia mais que palavras.Onde ser demais não era excesso, mas essência.Ali, sem moldura,…
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Veio antes da linguagem. Não era nome. Era denso. Era dentro. Morno. Ela não sabia se era parte de si ou um corpo alojado. Mas pulsava como se fosse dela. Sem utilidade. Sem finalidade. Com função. Ela não o chamava. Mas sentia quando acordava — porque a respiração vinha torta. A pontada não era dor.…
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Me olhavam. Mas não tinham rosto. Então entendi: era eu, sem ter ainda nascido de mim. ✍️
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Às vezes, começo a escrever como quem deixa a porta entreaberta.Não sei quem vai passar.Nem se alguém virá.Mas gosto da ideia de que as palavras, quando sinceras, fazem vento.Escrevo porque não sei outra forma de existir senão tentando nomear o que ainda não se explicou.Às vezes, a palavra vem antes da compreensão. Às vezes, vem…

