Lara Vaz-Tostes

Um lugar para quem escreve com o corpo e escuta com a pele.

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  • Antes do nome,eu já era. Não com rosto,não com gesto,mas com um saber sem borda,sem margem,sem início. Algo em mim sabiao que não se ensina.Sabia como o chão sabe a raizsem nunca tê-la visto. Era um saber sem palavra,feito de pele que respira sozinha,de silêncio que não pesa,de presença que não pede licença. Às vezes,…

  • Encontrei um objeto que não era coisa. Melhor, não era objeto.Não brilhava, mas iluminava. Não fazia som, mas quebrava o silêncio com um lirismo em ondulação. Era pequeno, mas não cabia em minhas mãos.Era vento, mas não passava como brisa.Era fogo mas não queimava. Era água mas não molhava. Era pessoa mas não tinha corpo.…

  • Há um algo —ou talvez não seja um algo,mas uma vibração real demais para ser conceito —que só aparece quando alguém olha com vida. Não com curiosidade.Não com expectativa.Mas com o tipo de ver que está atravessado pela própria existência. Se ninguém olha, ele não está.Se olham rápido, ele vira ruído.Mas se alguém vê com…

  • Há uma palavra que nunca quis nascer. Não era silêncio. Nem sombra.Nem o avesso da luz. Era o que havia antes de qualquer direção. Não pediu para ser pensada — e não foi. Mas um corpo a pressentiu, ao pisar no chão pela primeira vez, e sentiu o não-chão, e decidiu viver. Chamou esse não-chão…

  • Ninguém sabia ao certo quando ela havia recebido a pedra.Talvez no ventre. Talvez no primeiro gesto de silêncio.Só se sabia de uma coisa: ela nunca a deixou cair. Chamava-se Clara, mas havia algo em seu nome que sempre parecia faltar uma sílaba — como se estivesse eternamente esperando um sopro para ser inteiro. A pedra…

  • Há um livro que não é meu. Nunca foi. Mas pulsa em mim como se soubessea hora exata em que minhas mãos vão precisar dele. Não sei onde mora —talvez num sebo escondido, entre poeiras que respeitam o tempo. Talvez numa estante onde o silêncio segura o ar. Mas ele existe. Guarda uma virada. Uma…

  • Ente-deus mora entre o que penso e o que não consigo pensar. Não tem olhos, mas me olha. Não tem boca, mas me escuta. Não tem corpo, mas pulsa dentro do meu.Não sei se nasceu comigo ou se chegou antes —antes de mim, antes do mundo, antes mesmo da ideia de haver um nome. Chamo…