Lara Vaz-Tostes

Um lugar para quem escreve com o corpo e escuta com a pele.

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  • Só ao quase se perder,a voz se torna real. Quem, então, a escutaria?E ela insiste em ser. A brisa a leva —já rasa, já falha —e o que chegaé o som do ventocom uma minúscula existência em voz. Voz ou ruído?Diria que som,para não haver problemas. Som este sonhado.Por isso, talvez, incompleto.Sonhado por mim —mas…

  • Alguém — por favor, me veja. Alguém — me salve, me lave a alma. Alguém — me seja, me torne larva. Alguém — me retire, me vire do avesso. Alguém — me jogue nas águas dos medos. Alguém? Quem? Alguém — vem, que sou você também.

  • Ninguém nunca havia entrado por aquela porta. E, ainda assim, havia sinais de que alguém já a atravessara. Alguns diziam que era ilusão. Outros, que o espaço se dobrava sobre si. Para mim, parecia mais simples: não era a porta que se abria, mas o mundo que mudava de lugar. A superfície era lisa, sem…

  • Entrei na sala sem perceber.Ou talvez ela tenha entrado em mim.O ar ficou mais espesso, como se respirasse lembrança e não oxigênio.Cada passo que dou aqui me lembra do que deixei para trás.Não são fantasmas, são escolhas não feitas, que me observam sem exigir nada, mas não me deixam ir. O peso muda quando penso…

  • Existe algo que se move quando não olho.“Algo” é palavra pequena demais para isso. É tudo — menos o que meus olhos alcançam. Olho minhas mãos e vejo apenas as mãos, cercadas por um contorno embaçado.O resto — o grande resto — acontece sem mim.O tempo não passa: acontece. O ar desliza, minha gata se…