Lara Vaz-Tostes

Um lugar para quem escreve com o corpo e escuta com a pele.

  • Veio antes da linguagem.

    Não era nome.

    Era denso. Era dentro.

    Morno.

    Ela não sabia se era parte de si ou um corpo alojado. Mas pulsava como se fosse dela.

    Sem utilidade.

    Sem finalidade.

    Com função.

    Ela não o chamava. Mas sentia quando acordava — porque a respiração vinha torta.

    A pontada não era dor. Era lembrança de que ainda havia carne.

    Um gosto de metal atrás da garganta.

    Uma lágrima que não saía.

    Um grito que se dobrava em silêncio.

    Ela pensava, às vezes, em tirar.

    Abrir o peito, puxar com as mãos, dizer: aqui, olha — é isso que não sei mais guardar. Mas e se desmanchasse? E se ele não tivesse forma fora? Se tudo fosse ar coagulado, e ao romper, virasse vazio?

    Guardou.

    Não por medo.

    Mas por saber: há coisas que, se entregues, não aliviam — dissolvem.

    Então deixou estar.

    Escreveu, um dia, quase sem querer: “tem algo em mim que pesa, mas prova que ainda estou.”

    Dobrou o papel.

    Guardou também.

    No mesmo lugar.

    E respirou.

    Pouco.

    Mas inteiro.

  • Me olhavam.

    Mas não tinham rosto.

    Então entendi:

    era eu,

    sem ter ainda nascido

    de mim.

    ✍️

  • Às vezes, começo a escrever como quem deixa a porta entreaberta.Não sei quem vai passar.Nem se alguém virá.Mas gosto da ideia de que as palavras, quando sinceras, fazem vento.Escrevo porque não sei outra forma de existir senão tentando nomear o que ainda não se explicou.Às vezes, a palavra vem antes da compreensão. Às vezes, vem depois do choro.Mas sempre vem — se a gente souber escutar.Este espaço é um caderno aberto.Às vezes, será diário. Outras, silêncio.Às vezes, conto. Outras, apenas um gesto que se traduz em letra.E, se por acaso você passar por aqui — e algo se mover aí dentro —, deixa uma pergunta?Ou uma palavra. Ou um nome.Ou até o que nunca te perguntaram, mas você gostaria que alguém perguntasse um dia.Prometo: não é uma rede social. É só um lugar onde posso respirar mais lento.E talvez você também possa.

    Pode comentar abaixo. Ou escrever por aqui:

    Algumas respostas virão em texto. Outras talvez em poema.(Mas todas virão com cuidado.)

  • Me chamo Lara Vaz Tostes. Sou escritora, poeta e, aos poucos, pesquisadora. Nasci em Minas Gerais e me formei em Direito pela UFMG, mas foi na literatura que encontrei um lugar possível de existir — um lugar onde o que sinto não precisa caber em lógica, apenas em presença.

    Escrevo porque preciso. Porque, desde cedo, percebo o mundo com certa estranheza sensível — como se o que é simples para muitos, para mim viesse com camada. Com silêncio. Com profundidade demais. E, ao escrever, consigo respirar.Me interesso especialmente pelas experiências da neurodivergência, que atravessam minha vida e minha escrita de forma viva. Tenho buscado compreender — com cuidado, ética e escuta — o modo como pessoas autistas sentem, percebem e existem num mundo que, muitas vezes, exige formas que não são nossas.

    Escrevo livros, contos, poemas, e também estudos que tentam unir ciência, beleza e subjetividade. Às vezes participo de concursos, envio projetos, publico. Mas, mais do que tudo, continuo tentando ser honesta com o que pulsa em mim: nomear o que nunca foi nomeado, e fazer disso palavra — para mim, para quem lê, para quem também se sente fora do eixo comum das coisas.Ainda estou começando. Mas sigo — com delicadeza, com verdade, e com o desejo de que a escrita seja sempre um abrigo possível.

Lara Vaz-Tostes

Um lugar para quem escreve com o corpo e escuta com a pele.

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