Lara Vaz-Tostes

Um lugar para quem escreve com o corpo e escuta com a pele.


  • Só ao quase se perder,
    a voz se torna real.

    Quem, então, a escutaria?
    E ela insiste em ser.

    A brisa a leva —
    já rasa, já falha —
    e o que chega
    é o som do vento
    com uma minúscula existência em voz.

    Voz ou ruído?
    Diria que som,
    para não haver problemas.

    Som este sonhado.
    Por isso, talvez, incompleto.
    Sonhado por mim —
    mas pode ser
    que passe em outros sonhos.

    E parece paz.

    Assemelha-se ao silêncio,
    mas é seu oposto:
    melodia.

    Ínfima,
    mas eminente
    e imanente.

    E, talvez,
    eterna.

  • Alguém — por favor, me veja.

    Alguém — me salve, me lave a alma. Alguém — me seja, me torne larva. Alguém — me retire, me vire do avesso. Alguém — me jogue nas águas dos medos.

    Alguém? Quem?

    Alguém — vem, que sou você também.

  • Ninguém nunca havia entrado por aquela porta. E, ainda assim, havia sinais de que alguém já a atravessara.

    Alguns diziam que era ilusão. Outros, que o espaço se dobrava sobre si. Para mim, parecia mais simples: não era a porta que se abria, mas o mundo que mudava de lugar.

    A superfície era lisa, sem maçaneta, como se recusasse qualquer gesto humano de posse. Ao aproximar-me, ela desaparecia — restava apenas o cheiro súbito de terra molhada, uma sombra breve contra o chão, um sopro que não vinha de lado nenhum. Quando eu desviava os olhos, a porta voltava a existir, sólida, absurda.

    Fiquei dias tentando decifrar. Quem havia passado por ali? Um espírito? Não creio. Talvez fosse eu mesma. Talvez todos os que mudaram de lugar dentro de si. Porque mudar, descobri, também é atravessar.

    E se a porta não guardava outro espaço, mas a memória de todas as passagens invisíveis? A cada virtude adquirida, a cada pequena melhora, uma travessia silenciosa era registrada em sua madeira muda.

    Não sei se atravessei, ou se fui atravessada. Só sei que, quando voltei, o mundo me olhava diferente — não como quem passou, mas como quem se tornou passagem.

  • Entrei na sala sem perceber.
    Ou talvez ela tenha entrado em mim.
    O ar ficou mais espesso, como se respirasse lembrança e não oxigênio.
    Cada passo que dou aqui me lembra do que deixei para trás.
    Não são fantasmas, são escolhas não feitas, que me observam sem exigir nada, mas não me deixam ir.

    O peso muda quando penso em pessoas.
    Não é o rosto que vejo, é o espaço que ficou depois que se foram.
    O que vivi com alguém, o que deixei de viver, o que nunca vou saber se teria sido.
    A sala se torna mais funda, mais viva, quando carrego esses rostos dentro dela.

    Não tento dar nomes.
    Nomear seria amputar o que é maior do que qualquer palavra.
    O que se perde vivendo é mais vasto do que o que se ganha.
    Não falo de valor, mas de quantidade.
    Cada passo que dou é um corte no infinito de possibilidades.

    E então percebo: talvez minha vida inteira seja esta sala.
    Ou talvez eu não esteja nela.
    Talvez eu seja ela.

  • Existe algo que se move quando não olho.
    “Algo” é palavra pequena demais para isso. É tudo — menos o que meus olhos alcançam.

    Olho minhas mãos e vejo apenas as mãos, cercadas por um contorno embaçado.
    O resto — o grande resto — acontece sem mim.
    O tempo não passa: acontece. O ar desliza, minha gata se lambe, a rua muda. E eu nunca vejo o instante da mudança.

    No começo, tentei flagrar. Um copo de água, um casaco na cadeira, uma fotografia. Sempre que virava o rosto, algo mudava: uma gota, um milímetro, um reflexo. Era como se o mundo preservasse o pudor do acontecer.

    Até que entendi: não sou eu quem vê o movimento. Sou o intervalo que o permite.
    Aprendi a oferecer minha ausência como presente.
    E, às vezes, quando fecho os olhos e conto até treze, não é para flagrar — é para abençoar.

Lara Vaz-Tostes

Um lugar para quem escreve com o corpo e escuta com a pele.

Pular para o conteúdo ↓