Lara Vaz-Tostes

Um lugar para quem escreve com o corpo e escuta com a pele.

  • Respiração: insuflar o peito com a matéria divina que percorre a vida.

    Seguir: percorrer caminhos- mesmo incertos- sem a ponderação de um fim.

    Fértil: suscetível ao nascimento e criação misteriosa de seres.

    Instante: .

    Pressentimento: É a emoção de reação a um vir. Que pode não vir, ou que pode ser.

    Quase: É o inteiro faltante. 0 pseudo inteiro, a falácia do todo pela falta de um traço. Quase é o que não foi mas iria.

    Ressonância: É a vibração que dobra o som. É a memória do ruído que se faz ser pela consonância com o primeiro.

    Epílogo: É o que termina começando. Texto que põe um fim apegado ao começo.

  • Antes do nome,
    eu já era.

    Não com rosto,
    não com gesto,
    mas com um saber sem borda,
    sem margem,
    sem início.

    Algo em mim sabia
    o que não se ensina.
    Sabia como o chão sabe a raiz
    sem nunca tê-la visto.

    Era um saber sem palavra,
    feito de pele que respira sozinha,
    de silêncio que não pesa,
    de presença que não pede licença.

    Às vezes, ele me escapa —
    na curva de um pensamento,
    na dobra de um dia qualquer,
    quando tento agarrá-lo
    e ele sorri como quem brinca:
    “ainda não.”

    Mas está.

    Está nas pausas.
    Naquilo que antecede o sim.
    No que permanece
    quando todo o resto vai embora.

    Não sei o nome.
    Nem quero.

    Se nomear, talvez escape.
    Se explicar, talvez morra.

    Então eu fico quieta.
    E ele fica também.

    E nesse pacto sem voz,
    me torno.

  • Encontrei um objeto que não era coisa.
    Melhor, não era objeto.
    Não brilhava, mas iluminava. Não fazia som, mas quebrava o silêncio com um lirismo em ondulação.

    Era pequeno, mas não cabia em minhas mãos.
    Era vento, mas não passava como brisa.
    Era fogo mas não queimava. Era água mas não molhava.

    Era pessoa mas não tinha corpo.
    Era alma mas sem espírito. Era o quê?
    Toquei sem encostar,
    senti sem os sentidos. Penetrou em mim sem entrar, e fui ser.

  • Há um algo —
    ou talvez não seja um algo,
    mas uma vibração real demais para ser conceito —
    que só aparece quando alguém olha com vida.

    Não com curiosidade.
    Não com expectativa.
    Mas com o tipo de ver que está atravessado pela própria existência.

    Se ninguém olha, ele não está.
    Se olham rápido, ele vira ruído.
    Mas se alguém vê com a densidade de estar vivo,
    ele aparece.

    Sim, ele só existe porque é visto.
    E ao ser visto, se torna o que é.
    Essa redundância não é erro —
    é a estrutura.
    Porque o que vive desse modo só pode ser sendo.

    Ele não tem forma.
    Não tem definição.
    Mas se encarna, às vezes, no pôr do sol.
    Às vezes num gesto.
    Às vezes numa ausência.

    É diferente para cada um.
    E ainda assim, é o mesmo.

    Se tentam fixá-lo, ele desaparece.
    Se dizem que o entenderam, ele cala.
    Mas quando o veem sem pedir nada,
    ele responde.

    Chamei-o de beleza.

    Não para dizer o que é —
    mas para não deixar que passasse sem um nome.

    E talvez, por tê-lo nomeado,
    ele já não seja mais o mesmo.

    Ou talvez só agora
    tenha começado a ser.

  • Há uma palavra que nunca quis nascer.

    Não era silêncio. Nem sombra.Nem o avesso da luz.

    Era o que havia antes de qualquer direção.

    Não pediu para ser pensada — e não foi.

    Mas um corpo a pressentiu,

    ao pisar no chão pela primeira vez,

    e sentiu o não-chão,

    e decidiu viver.

    Chamou esse não-chão de Letum,

    mas apenas em pensamento.

    E então nasceu uma outra palavra,

    Eros —não como desejo,

    mas como

    juramento de existência.

    Eros: aquele que olha para Letum e diz:”Não te odeio, mas também não te sigo.

    Fico.”


  • Ninguém sabia ao certo quando ela havia recebido a pedra.
    Talvez no ventre. Talvez no primeiro gesto de silêncio.
    Só se sabia de uma coisa: ela nunca a deixou cair.

    Chamava-se Clara, mas havia algo em seu nome que sempre parecia faltar uma sílaba — como se estivesse eternamente esperando um sopro para ser inteiro.

    A pedra morava ora na barriga, ora no peito, ora na palma da mão.
    Era quente. Pesada.
    Mas de um tipo de peso que lembrava colo, não castigo.
    Tinha forma de dente de leão.
    E isso confundia os outros.

    — Parece tão leve — diziam.
    — É só aparência — ela respondia, com um sorriso sereno.
    — Mas se assoprar… voa?
    — Não. Ela não veio para ir embora.


    Durante muito tempo, Clara acreditou que a pedra era um enigma a ser decifrado.
    Tentou nomeá-la com palavras dos outros: ansiedade, lembrança, saudade.
    Nenhuma servia.

    Até que um dia, no meio de uma tarde que parecia nada, ela a segurou com as duas mãos e perguntou:

    — Você me fez ou fui eu que te fiz?

    A pedra não respondeu.
    Mas naquele instante, Clara soube: a pedra era a parte dela que nunca se separou do que era essencial.
    Não a parte que grita. Nem a que explica.
    Mas a que ancora.

    Era o que a fazia voltar, quando tudo se desfazia.
    Era o que a sustentava, mesmo quando nada mais parecia caber.


    Nunca contou isso a ninguém.
    Mas um dia, quando alguém lhe perguntou como conseguia existir tão profundamente,
    ela apenas disse:

    — Carrego uma pedra.
    Ela parece leve.
    Mas é nela que o mundo me pesa com sentido.


    E pela primeira vez, sentiu que talvez não fosse preciso nomear.
    Bastava aceitar: há pedras que não se jogam.
    Há pedras que formam chão.
    E há pedras — raras, mas reais — que são o coração antes do nome.

Lara Vaz-Tostes

Um lugar para quem escreve com o corpo e escuta com a pele.

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