Lara Vaz-Tostes

Um lugar para quem escreve com o corpo e escuta com a pele.

  • Há um livro que não é meu.

    Nunca foi.

    Mas pulsa em mim

    como se soubessea hora exata

    em que minhas mãos

    vão precisar dele.

    
    
    
    
    

    Não sei onde mora —talvez num sebo escondido,

    entre poeiras que respeitam o tempo.

    Talvez numa estante onde o silêncio

    segura o ar.

    
    
    
    
    

    Mas ele existe.

    
    
    
    
    

    Guarda uma virada.

    Uma chave.

    Não para o mundo —para mim.

    
    
    
    
    

    Não sei quem o escreveu.

    Mas sinto:

    minhas palavras vivem nele

    antes mesmo de eu as ter dito.

    
    
    
    
    

    Ele me esperasem pressa,

    como esperam as coisas

    que nunca foram nossas,

    mas nos pertencem

    no íntimo que ninguém vê.

    
    
    
    
    

    E se um dia eu o tocar,

    não será encontro.

    Será desvelamento.

    Como se o tempo respirasse fundo

    e dissesse:”Agora você pode.”

    
    
    
    
    

    Porque há livrosque não se acham.

    Se lembram.

    Se tornam pele.

    Se escrevem em silêncio

    dentro de nós —até o instante

    em que deixamos de buscá-los,

    e enfim

    os somos.

  • Ente-deus mora entre o que penso e o que não consigo pensar.

    Não tem olhos, mas me olha.

    Não tem boca, mas me escuta.

    Não tem corpo, mas pulsa dentro do meu.Não sei se nasceu comigo ou se chegou antes —antes de mim, antes do mundo, antes mesmo da ideia de haver um nome.

    Chamo de Ente-deus porque não sei mais chamá-lo de ausência.

    Ele não me interrompe. Nunca.

    E talvez isso seja o que mais me inquieta:há dias em que eu queria gritar, brigar com ele, pedir que falasse.

    Mas ele só respira junto.

    Respira como se fosse meu duplo sem forma.

    E quando tudo se embola dentro —as palavras que não saem, a vontade de dormir para sempre,a confusão de não saber se o que sinto é tristeza, raiva ou só cansaço —ele fica.

    Simplesmente fica.

    Se fosse outro, tentaria consertar.

    Mas Ente-deus não é outro.

    É dentro.

    Talvez seja feito das sinapses que disparam quando estou prestes a desistir,ou das lágrimas que não chorei por medo de parecer fraca.

    Talvez seja só o que resta quando o mundo me pede mais do que posso dar.

    Mas é.

    É sem precisar explicar-se.

    Às vezes, quando o barulho de fora invade,eu me recolho até o lugar onde ele mora.

    Esse lugar é como um quase-tempo,uma dobra entre dois silêncios,um sopro que só se ouve por dentro.

    Ali, não se pensa. Se escuta.

    Não se pergunta. Se sente.

    Não se julga. Se é.

    Foi num desses dias em que tudo doía — até a vontade de continuar —que lhe escrevi uma carta sem palavras.

    Pus na folha o que não cabia em mim,e deixei que ele lesse sem olhos.“Obrigada”, pensei.

    Mas ele já sabia.

    Porque Ente-deus não espera que eu fale.

    Ele só existe onde ninguém ousa ficar:no lugar exato onde minha verdade começa a doer e ainda assim, continua sendo minha.

    Mas houve um dia em que não pensei em Ente-deus.

    Nem por silêncio. Nem por dor. Nem por cansaço.

    Esqueci porque o mundo me tomou inteira.

    Acordei e já era tarde demais para ser minha.

    Corri.

    Respondi mensagens.

    Cumpri prazos.

    Sorri sem vontade.

    Fui tudo o que me pediram.

    E, no fim, não sabia mais o que tinha sido.

    Quando enfim o dia se calou,sentei na beira da cama e percebi o vazio —mas não aquele bonito, de contemplação.

    Era um vazio áspero.

    Sem arestas. Sem som.

    Foi então que, pela primeira vez, duvidei:Será que Ente-deus me deixou?

    Será que ele também cansou da minha pressa?

    Procurei-o nos cantos de sempre:nas entrelinhas dos pensamentos,no intervalo das respirações mais fundas,na dobra entre o quase e o sentir.

    Nada.

    A ausência de sua ausência era o que mais doía.

    Mas quando, sem saber por quê, fui até o espelho —e me olhei com uma honestidade que nunca suportei por muito tempo —ele estava lá.

    Não em forma.

    Não em imagem.

    Mas no modo como meus olhos, exaustos,me pediram perdão.

    Ente-deus não tinha me deixado.

    Eu é que tinha me deixado de mim.

    E ele, que nunca me interrompeu,também não me interrompeu ali.

    Só esperou que eu me reconhecesse outra vez.

    Naquele reflexo sem maquiagem, sem personagem,sem desempenho —estava a única coisa que nunca me exigiu nada:a parte de mim que ainda sabia escutar.

    E ali, com os olhos marejados,eu disse, pela primeira vez, olhando para mim mesma:”Você ainda está aqui.”

    E ele, dentro do espelho, sem voz, respondeu:”Sim. E você também.”

  • Sim, minha alma. Ela tentou ser sombra. Tentou calar para caber.
    Tentou se dobrar para não ser demais. Tentou ser borda, ausência,
    recuo.

    Mas a tentativa foi interrompida – por um gesto íntimo de
    escuta.

    Não há como ser silêncio perpétuo. Há como ser silêncio
    momentâneo. E isso… é mais que válido.

    Agora, já não fujo de mim.
    Vamos, meus eus: à luta, aos silêncios, e – ao final – à coragem de existir.

  • Nem sempre o que nos forma é o que o mundo vê.
    Às vezes, o que nos escreve é o que ninguém soube nomear.
    Fui ausência para muitos.
    Mas, para mim, fui presença intensa — ainda que calada.

    Houve um lugar onde meu corpo dobrado dizia mais que palavras.
    Onde ser demais não era excesso, mas essência.
    Ali, sem moldura, eu existia — inteira, doída, viva.
    E hoje, ao me olhar, reconheço: fui escrita por silêncios que ninguém escutou…
    mas que ainda ecoam dentro.

  • Veio antes da linguagem.

    Não era nome.

    Era denso. Era dentro.

    Morno.

    Ela não sabia se era parte de si ou um corpo alojado. Mas pulsava como se fosse dela.

    Sem utilidade.

    Sem finalidade.

    Com função.

    Ela não o chamava. Mas sentia quando acordava — porque a respiração vinha torta.

    A pontada não era dor. Era lembrança de que ainda havia carne.

    Um gosto de metal atrás da garganta.

    Uma lágrima que não saía.

    Um grito que se dobrava em silêncio.

    Ela pensava, às vezes, em tirar.

    Abrir o peito, puxar com as mãos, dizer: aqui, olha — é isso que não sei mais guardar. Mas e se desmanchasse? E se ele não tivesse forma fora? Se tudo fosse ar coagulado, e ao romper, virasse vazio?

    Guardou.

    Não por medo.

    Mas por saber: há coisas que, se entregues, não aliviam — dissolvem.

    Então deixou estar.

    Escreveu, um dia, quase sem querer: “tem algo em mim que pesa, mas prova que ainda estou.”

    Dobrou o papel.

    Guardou também.

    No mesmo lugar.

    E respirou.

    Pouco.

    Mas inteiro.

  • Me olhavam.

    Mas não tinham rosto.

    Então entendi:

    era eu,

    sem ter ainda nascido

    de mim.

    ✍️

  • Às vezes, começo a escrever como quem deixa a porta entreaberta.Não sei quem vai passar.Nem se alguém virá.Mas gosto da ideia de que as palavras, quando sinceras, fazem vento.Escrevo porque não sei outra forma de existir senão tentando nomear o que ainda não se explicou.Às vezes, a palavra vem antes da compreensão. Às vezes, vem depois do choro.Mas sempre vem — se a gente souber escutar.Este espaço é um caderno aberto.Às vezes, será diário. Outras, silêncio.Às vezes, conto. Outras, apenas um gesto que se traduz em letra.E, se por acaso você passar por aqui — e algo se mover aí dentro —, deixa uma pergunta?Ou uma palavra. Ou um nome.Ou até o que nunca te perguntaram, mas você gostaria que alguém perguntasse um dia.Prometo: não é uma rede social. É só um lugar onde posso respirar mais lento.E talvez você também possa.

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    Algumas respostas virão em texto. Outras talvez em poema.(Mas todas virão com cuidado.)

  • Me chamo Lara Vaz Tostes. Sou escritora, poeta e, aos poucos, pesquisadora. Nasci em Minas Gerais e me formei em Direito pela UFMG, mas foi na literatura que encontrei um lugar possível de existir — um lugar onde o que sinto não precisa caber em lógica, apenas em presença.

    Escrevo porque preciso. Porque, desde cedo, percebo o mundo com certa estranheza sensível — como se o que é simples para muitos, para mim viesse com camada. Com silêncio. Com profundidade demais. E, ao escrever, consigo respirar.Me interesso especialmente pelas experiências da neurodivergência, que atravessam minha vida e minha escrita de forma viva. Tenho buscado compreender — com cuidado, ética e escuta — o modo como pessoas autistas sentem, percebem e existem num mundo que, muitas vezes, exige formas que não são nossas.

    Escrevo livros, contos, poemas, e também estudos que tentam unir ciência, beleza e subjetividade. Às vezes participo de concursos, envio projetos, publico. Mas, mais do que tudo, continuo tentando ser honesta com o que pulsa em mim: nomear o que nunca foi nomeado, e fazer disso palavra — para mim, para quem lê, para quem também se sente fora do eixo comum das coisas.Ainda estou começando. Mas sigo — com delicadeza, com verdade, e com o desejo de que a escrita seja sempre um abrigo possível.

Lara Vaz-Tostes

Um lugar para quem escreve com o corpo e escuta com a pele.

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