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Vejo os dias, embaçados,
deslizarem pela lente
suspensa em meu olhar,
já não inocente,
destes olhos fatigados.Há mistério nas contingências
desta vida que perdura
e sustenta o corpo,
como Atlas, antigo e só,
carregava o mundo.Sou um mundo.
Cada ser o é também,
à sua maneira funda,
singular e irrepetível.
Mas não sou apenas
vítima do peso.Tomarei entre os dedos
um pano mínimo,
um gesto quase terno,
e limparei devagar
a bruma dos meus olhos.Verei, então.
Não demais
— não sou de excessos —
mas o bastante
para seguir.Serei meu próprio amparo,
e o que em mim pesa,
enfim mais manso,
pesará mais leve. -
No espelho, olhos fundos.
Nas mãos, o vazio.
Nos pés, a medida exata
de quem nasceu pequeno
para um mundo excessivo.O vácuo, por vezes,
interrompe-me a respiração,
como se viver fosse isto:
uma hesitação entre o abismo
e o próximo instante.
Mas o coração — criatura travessa,
pouco obediente à ruína —
bate.
E, mais do que isso, revolta-se.
Convém notar:
o que é frágil não é nulo.
O que é pequeno
não se confunde com o inexistente.
Vivo, pois, nessa dança estranha,
em que o corpo sente
mais do que consente,
e guarda em si movimentos
que não consegue repetir. -
Ela começa a se preparar cinco horas antes.
É coisa dela.
Escolhe a roupa devagar, volta ao espelho, muda de ideia. Há sempre algo a ajustar: um fio de cabelo, um gesto, um perfume. Como se a noite dependesse de pequenos detalhes.
Ele começa uma hora antes.
Também nervoso, embora talvez não saiba dar esse nome ao que sente. Escolhe uma camisa, depois outra. Abre o frasco de perfume e exagera na fragrância.
Percebe.
Decide trocar de blusa.
Qual?
Procura outra com pressa.
No movimento, derruba o frasco de perfume no chão.
Pano. Água. Pressa.
O relógio segue.
Já deu a hora.
Ela, pronta.
Ele ainda procura uma blusa.
E é entre esses dois gestos que um encontro começa. -
Sentava nos degraus de um museu, esperando o carro para casa.
Não estava feliz.
Também não estava triste.
A praça em frente estava cheia.
O pipoqueiro escutava um radinho.
Eu, sozinha.
Talvez os olhos um pouco úmidos.
Tristeza dessas que não pedem explicação.
Passou um rapaz vendendo balas.
Ofereceu uma.
Recusei — falta de recursos.
Ele seguiu.
Algum tempo depois voltou.
Disse que minha cara parecia triste
(e talvez estivesse mesmo)
e me deu uma bala.
Não me deixou feliz.
Mas voltei para casa
com uma bala no bolso
e uma pequena fé no mundo. -
Nunca me seduziu o silêncio.
Não ignoro suas vantagens: é cômodo, prudente
e amplamente celebrado por poupar os outros
do embaraço de nossas ideias.Possui, ademais, a notável virtude
de fazer parecer profundas até as naturezas mais ocas.Cheguei a contemplá-lo com certa benevolência,
como se contempla um hábito respeitável
e profundamente desinteressante.Mas há em mim um desvio persistente.
Penso.E do pensamento — essa indisciplina da mente —
nascem opiniões.E das opiniões, inevitavelmente, palavras.
Falo.
Sem o menor talento para a concordância ornamental
ou para essa forma tão difundida de cortesia
que consiste em admirar o que não convence
e acatar o que não resiste a dois minutos de reflexão.Quanto às opiniões alheias, tranquilizo: tolero-as.
Como se toleram fenômenos inevitáveis
ou pequenas excentricidades da natureza humana.
Jamais me ocorreu, entretanto,
atribuir-lhes aquela gravidade quase sagrada
que seus autores, comoventemente, lhes conferem.










