Lara Vaz-Tostes

Um lugar para quem escreve com o corpo e escuta com a pele.

A mão repousa sobre a mesa.
Não segura nada — e ainda assim há um peso invisível, um eco do que foi presença.
A madeira parece antiga, mas talvez seja o tempo que envelhece em volta dela. Entre o calor da pele e a superfície imóvel, existe algo que não se vê: um intervalo, uma respiração do que já não está.

Ali, no espaço entre o toque e o não toque, o corpo se recorda de existir.
Não é memória, é sensação pura — como se o vento se deitasse dentro da carne. O gesto não busca, não chama, não retém; apenas sustenta o que o mundo deixou cair.

A mão, cansada, lembra o divino. Não o divino das alturas, mas o que se aloja no cansaço humano.
É presença sem forma, ausência que aquece. Um vestígio que o corpo reconhece, mesmo sem lembrança.

E então ela não move.
Permanece aberta, entre o ser e o não ser, como se a própria madeira respirasse junto.
Nesse repouso, o tempo se dissolve — e a mão, que antes tocava o mundo, torna-se o próprio espaço onde o mundo repousa.

O gesto fica.
Silencioso, imóvel, eterno o suficiente para ensinar o vazio a ter corpo.


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Uma resposta para “A Mão que Lembra o Vazio”.

  1. Avatar de Hugo Almeida

    Bom dia, Lara. Parabéns, parabéns, parabéns.Outro texto maravilhoso, primoroso, perfeito. A mão que o escreveu tem halo divino.Cada poema/conto seu é um presente para a Humanidade. Fraternalmente, Hugo.

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