Lara Vaz-Tostes

Um lugar para quem escreve com o corpo e escuta com a pele.

Clara perguntou sobre a felicidade numa tarde comum, dessas em que não se espera nada além de cumprir o dia. Perguntou quase sem querer, como quem comenta o clima. Alguém respondeu que a felicidade vinha de pequenos momentos. Ela concordou, porque parecia uma resposta adequada e porque discordar exigiria mais energia.

Depois, sozinha, pensou na tristeza. Não viria ela também em pequenos momentos? Um gesto deslocado, uma palavra mal colocada, um silêncio que dura mais do que devia. Passou então a confundir as duas. Achou que tristeza era quando doía, e felicidade quando não doía. A equação parecia razoável.

Mas a vida não confirmou essa lógica.
Houve dias inteiros sem dor alguma em que Clara não sentiu felicidade nenhuma. E houve tristezas sem dor — apenas uma presença discreta, sentada ali, ocupando espaço, sem aviso nem explicação. Isso a perturbava mais do que a dor clara.

Por um tempo, resolveu apostar no sucesso. Pensou que talvez a felicidade aparecesse quando se alcança o que se deseja. Funcionou por instantes. Depois passou. O que ficou não foi tristeza, mas um silêncio meio frustrado, como quando se espera demais de uma resposta automática.

Hoje, Clara já não tenta resolver a questão. Vive. Ama. Ri quando dá. Em outros dias, apenas segue. Não porque tenha encontrado uma resposta melhor, mas porque percebeu que insistir na pergunta não ajudava muito.

No fim, Clara parou de procurar uma definição definitiva.

Notou que a felicidade parecia sempre ocupada demais para se deixar explicar. Talvez estivesse acontecendo enquanto ela pensava nela.

Quando alguém pergunta se ela é feliz, Clara não se apressa. Diz que anda. Que vive. Que há dias melhores, outros nem tanto. Não por filosofia — por economia.

A felicidade, ao que tudo indica, não gosta de entrevistas.


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Uma resposta a “Uma pergunta inconveniente”

  1. Avatar de Hugo Almeida

    Belíssimo texto, Lara. Nele, você caminha para um conto (ou já é) ou uma história mais ampla, novela ou romance. Clara, pessoa viva transfigurada na literatura. A vida como se apresenta ou como a arte a vê. Parabéns.

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