Lara Vaz-Tostes

Um lugar para quem escreve com o corpo e escuta com a pele.

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  • Silêncio. Nenhum ruído ao redor — nem mesmo aqueles que costumam sobreviver quando tudo se cala. Estou só. Parada. Os ouvidos parecem inúteis, ou talvez necessários apenas para ouvir a paz, se é que ela faz som. Nada em volta. Meus pés descalços tocam um chão branco, limpo, sem marcas, sem restos de passagem. Um…

  • Acorda sem sobressalto. A vida já está ali antes do gesto, espalhada no quarto, no ar que entra sem pedir licença. Não chega a ser lucidez. É mais um estar. Um pouco tonta — o corpo avisa antes do pensamento. Pressão baixa. O mundo inclina levemente para a esquerda.Levanta.Lava o rosto como quem cumpre um…

  • Sou feita de ruídos calmos.De ondas que não quebram — mas continuam.Carrego um sopro antigo entre as costelas,um quase-canto que não precisa ser ouvido. Penso com o corpo,sinto com a ideia,respiro pensamentos até que doam. Quando o mundo se cala,eu o escuto mais fundo —ele me fala com olhos de vento. Não nasci para ser…

  • A mão repousa sobre a mesa.Não segura nada — e ainda assim há um peso invisível, um eco do que foi presença.A madeira parece antiga, mas talvez seja o tempo que envelhece em volta dela. Entre o calor da pele e a superfície imóvel, existe algo que não se vê: um intervalo, uma respiração do…

  • A casa não fala — se cala e se aquece,guarda o que ouve, transforma, tece.Palavra que chega, o ar reconhece,vira calor onde o silêncio acontece. Séculos de ecos dormindo nas veias,até que uma vibração cresceu, ficou cheia;cansada de ouvir o que o tempo esquecia,a casa escreveu: encontro, e ardia. O lar não é teto, é…

  • Só ao quase se perder,a voz se torna real. Quem, então, a escutaria?E ela insiste em ser. A brisa a leva —já rasa, já falha —e o que chegaé o som do ventocom uma minúscula existência em voz. Voz ou ruído?Diria que som,para não haver problemas. Som este sonhado.Por isso, talvez, incompleto.Sonhado por mim —mas…